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Nós três

Três amigas. Três mulheres. Nós três.

Segunda-feira, 14 de Maio de 2007

Configuração de fábrica

"Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho
Dei pra maldizer o nosso lar
Pra sujar teu nome, te humilhar
E me vingar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso
Pra mostrar que ainda sou tua"

GRUNF.

Diz a Lija que toda mulher brasileira nascida após 1950 está pré-programada a amar Chico Buarque. Configuração padrão de fábrica, tá na água que nossas mães e avós beberam.

Eu acho que a nós o amamos porque ele entende. Suspira conosco, sangra conosco. Diz o que não queremos encarar e nos faz agradecer pela porrada. Sempre da forma mais bonita possível. Por essas e outras, acabamos sendo todas dele, mesmo que em pensamento só.

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Quinta-feira, 19 de Abril de 2007

Resolução

Tou em débito com esse blog, né gente? Mas eu tava pensando numa coisa aqui.

Acho que cansei de brincar de supermulher. Não quero mais. Acho que eu quero ser só mulher.

Sem mais para o momento, beijo.

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Quarta-feira, 11 de Abril de 2007

Exemplos

Ando pensando muito em que tipo de mulher eu quero ser quando tiver 35, 45, 55, 65 anos... E me dei conta de que não tenho uma mulher-exemplo. Mães não contam, porque conhecemos bem demais a realidade para idealizá-las. Não fui próxima das minhas avós, que infelizmente perdi cedo demais para perguntar o que eu gostaria de saber.

Acho saudável ter um ideal, desde que isso não force a imitação. Ideal inspirador mesmo, como algumas músicas são para momentos da vida. Por que não ter pessoas que nos inspiram? Para mim, a inspiração vem de mulheres fictícias. Mulheres mais velhas com as quais eu gostaria de ter coisas em comum quando chegar lá.

1. Antônia, de A Excêntrica Família de Antônia. Mulher, mãe, avó, bisavó, solteira, apaixonada, forte, tranquila, calma. Inspiradora, conselheira, matriarca. Apesar de não ter ambições dinásticas, eu gostaria muito de ter a sabedoria e a calma de Antônia.

2. Francis, de Sob o Sol da Toscana. Histérica, desesperada, louca, ousada, real. Perseverante, honesta. Manteve a força para se entregar, se conhecer, se arriscar. Artista, professora, senhora da mansão, cozinheira, refinada, culta, inteligente. Bondosa e generosa, abriga amigos e agregados para formar sua família sem laços de sangue.

3. Éowyn, de O Senhor dos Anéis. Uma guerreira, alguém não satisfeita com o que lhe foi imposto. Uma mulher que consegue se livrar de seus pré-conceitos para simplesmente ser feliz. Alguém que fez o caminho diferente, que fez diferença no mundo e que perdeu a arrogância. Linda :~

4. A combinação de Elinor e Marianne Dashwood, de Razão e Sensibilidade. Só funcionam juntas, como complemento. Elinor sozinha é contida demais, conservadora demais. Marianne sozinha é irresponsável demais, romântica demais. Juntas, se equilibram e viram uma entidade ideal, com sabedoria, paciência e uma pitada de ousadia.

5. Madame Olenska, de A Época da Inocência. Espontânea, honesta, sensível, sofisticada, sexy. Capaz de abrir mão do que mais queria em nome de um ideal, em nome de uma visão de mundo. Ok, um pouco conservadora demais depois de levar tanta porrada da vida, mas ainda assim um ideal.

Existem outras, mas me fogem à memoria agora. E vocês, meninas? Tem alguma musa?

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Sexta-feira, 30 de Março de 2007

Romance


Eu culpo as comédias românticas, sabe? Sempre houve o romantismo, de uma forma ou outra. Na nossa geração, os sonhos românticos são melhor representados pelas comédias românticas. Nascemos com elas, crescemos com elas e passamos a vida nos rendendo a elas.

E qual é o resultado? Passamos a acreditar - sem que a razão seja envolvida - que amor de verdade é aquele em que o cara foge da polícia para te encontrar no topo do Empire State Building em Nova York. Ou que você só vai saber que ele realmente te ama quando abandonar toda uma vida num lugar para dividir uma choupana com você no meio do deserto em algum lugar.

Coisas extremas, irresponsáveis e extremamente sedutoras. Coisas que fazem a gente, mulheres-meninas, sentir que somos as mais especiais do universo, inigualáveis, escolhidas pelas estrelas. E, como filmes mostram um tempo editado, o romance é intenso durante as duas horas em que leva para contar uma vida inteira. São arroubos de paixão e entrega sem precendentes, tão intensos que passam a ser... normais.

E as surpresas românticas deixam de ser surpresas para se tornarem coisas que a gente espera. E depois coisas que a gente exige. E, obviamente, viram frustrações, porque as nossas caras-metade não pretendem absolutamente viver como príncipes encantados.

Hoje eu acho que eles têm razão.

Como é cansativo ficar cobrando e chorando por essa intensidade maluca e artificial. Que desperdício de energia e de momentos tranquilos felizes. Que equívoco!

Eu culpo as comédias românticas. Queria ser ressarcida pela grana que vai me custar agora consertar a cabeça e as expectativas...

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Quarta-feira, 14 de Março de 2007

Represas

Confesso que às vezes meu peito é como uma grande represa. A cada dia, deixo mais uma gotinha ser depositada ali e me calo. Abro um sorriso vazio, engulo as palavras e dou um consentimento contrário à minha vontade antes mesmo de ter tempo de refletir. É um tipo de covardia, um medo irracional de situações de confronto e momentos desagradáveis. E pior: tenho visto muita gente em situação parecida com a minha.

O problema não é apenas se a anular, o problema é que toda represa precisa de um alívio senão ela estoura. A torrente de palavras feias que sai dali é chocante para quem não tinha nem idéia de que existia um desconforto. Isso me incomoda, porque é sempre ruim perder a razão de bobeira, mas pior ainda é efetivamente ser injusta com a(s) pessoa(s) em questão.

Se o interlocutor for do sexo masculino, periga dele não ter nem idéia de que existia um desconforto. Vi essa cena mil vezes até aprender que assim não há relacionamento - seja de trabalho, amizade ou romance - que resista. Não gosto do extremo oposto, que é o barraco. Mas como diz meu querido pai, citando Buda de forma completamente empírica, o equilíbrio é fundamental.

Fica a pergunta: por que a gente faz isso? Eu nunca apanhei por reclamar educadamente de nada. Então por que tanto temor? Por que tanta coisa contida criando fantasmas gigantescos onde só havia uma formiguinha?

Já estive dos dois lados da explosão e sei o quão incompreensível é ver alguém explodindo (aparentemente) do nada, por uma bobagem. Não sou fã de pagar de louca por aí, estou fazendo o que posso - e progredindo bem - para evitar novas represas. Mas eu queria entender. Meninas, luz?

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Obrigada, Miriam Goldenberg

"A cultura constrói a mulher muito fragilizada sem um homem. É como se eles fossem objetos disputadíssimos, um objeto fundamental. Enquanto a gente não reverter isso, vamos continuar agindo como loucas, disputando atenção, achando que um telefonema pode mudar a nossa vida.

O que a gente precisa é reverter essa idéia de que uma mulher sem um homem é uma fracassada, uma mulher menos. No dia em que as brasileiras falarem: 'A minha opção é casar e ter filhos', 'a minha opção é não casar e não ter filhos', 'a minha opção é ter um filho sem casar', quando tivermos todo esse cardápio de escolhas, vamos ser livres.

Eu tenho nos meus dados que as mulheres invejam a liberdade masculina. Como pode? Depois de tudo o que a gente avançou? Isso é porque as mulheres não são livres!"


Íntegra da entrevista aqui.

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Segunda-feira, 26 de Fevereiro de 2007

Metrópole

Neste fim de semana descobri que é mentira dizer que São Paulo tem tudo o que você precisa 24 horas por dia. Depois de um dia inteiro com meninas, é claro que chegamos à fase de conversar (horas) sobre cabelos. Nossos, das outras, das famosas, das vizinhas, essas coisas de mulher.

E, ao falar de cabelo, tive uma vontade incontrolável de finalmente cortar o meu. Secretamente, eu queria radicalizar. Arriscar todas as fichas no 14 Vermelho, por favor.

Eram cerca de meia-noite de sábado, hora em que parte da cidade está acordando. Eu, Lija e Camile saimos em busca de um sanduiche bom (achamos no Achapa) e de um cabelereiro aberto. A escolha óbvia foi passar de carro pela Rua Augusta, sentido Centro, em busca dos salões que arrumam as mocinhas que lá trabalham.

Achamos dois salões abertos por volta da 1 da manhã. Um estava completamente vazio, sem nem mesmo atendentes. Todos estavam sentados do lado de fora, na calçada. O outro tinha uma rodinha de cadeiras e nelas estavam uns 4 ou 5 travestis loiros com cabelo escovadíssimo, estilo novela da Globo.

Desanimei. Eu sempre olho pro cabelo do profissional antes de colocar o meu nas mãos da pessoa e um salão às moscas e outro cheio de loiras globais wannabe NÃO! Não queria também nenhum salão ultra-mega-modernete. Só um salão normal, mas que ficasse aberto até (muito) tarde.

Uma pena, tive que esperar para cortar nos salões “normais” e perdi o ímpeto de mudança radical...

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Domingo, 11 de Fevereiro de 2007

Namorada de amigo meu

Mais um assunto polêmico, as namoradas dos amigos. Estive refletindo nisso desde que uma delas, que hoje é amiga e ponto, independente do namorado, me falou sobre o quão intimidante foram os primeiros dias de convívio com as melhores amigas dele.

É realmente complicado conviver com as amigas do namorado. Eu estive muito mais do outro lado do que enquanto a nova namorada e digo que é uma situação delicada de qualquer jeito. Quando seu melhor amigo arruma uma namorada com quem você não se dá bem, é difícil. Inevitavelmente, o amigo se afasta e você fica naquela situação chata de não poder nem reclamar, porque quer a felicidade dele.

Horrível confessar, mas muitas vezes há uma comemoração secreta quando o namoro acaba. Especialmente se o amigo não está sofrendo muito, porque sofrimento nunca tráz comemoração. Enfim, namoradas de amigos são um assunto complicado.

É por isso que eu realmente adoro quando uma delas vira uma amiga tão querida que só de olhar a foto fico com saudades. Se fosse possível, queria ver todos os meus queridos com namoradas excelentes. E as queridas amigas também, só que elas já estão quase todas muito bem encaminhadas ;)

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Sexta-feira, 9 de Fevereiro de 2007

Isto é um assalto

Ontem eu fui assaltada enquanto estava de carona no carro de uma colega de trabalho. Ela gentilmente ofereceu uma carona até a Avenida Paulista e eu aceitei. Por incrível que pareça, foi o primeiro assalto de verdade que sofri em toda a minha vida, mesmo depois de 25 anos de Rio de Janeiro.

E não foi nada tenebroso como as coisas que a gente lê no jornal, apesar de estar longe de ser uma experiência que eu gostaria de repetir. Foi um moleque, um pivete magrinho que falava muito baixo e pausado. Devia ter entre 9 e 12 anos, no máximo, baixinho, magro. Sem características que o diferenciassem do estereótipo de um pivete de rua.

Ele se aproximou da minha janela (praticamente fechada) e começou a falar pausadamente, olhando para um espaço vazio entre eu e minha colega. "Se acelerar ou fechar a janela ou gritar, dou um tiro em você. Me dá todo o dinheiro, agora. Me dá tudo logo."

Demorei para entender a situação, pois eu estava no meio de um causo qualquer. E confesso que parei dois segundos para avaliar o moleque e tentar ver o quanto ele valia. Não foi uma opção racional, claro, foi uma reação. A única que tive, inclusive. Fiquei olhando para ele e disse, em únissono com a colega, "não tenho nada, cara". Fiz uma expressão facial de lamentação sem muita preocupação e daí ele começou a dizer que valia celular, qualquer coisa, vamos logo com isso.

Minha colega ficou fingindo que ia pegar a bolsa enquanto eu efetivamente abri o bolso da mochila, meti a mão no meu porta dinheiros e tirei as notas que consegue tatear. R$30, descobri depois. Entrei a ele pela frestinha do vidro e virei o rosto, com raiva bem maior do que eu achei que fosse sentir.

Tanta raiva que desejei - com uma certa certeza sádica - coisas muito piores para ele do que ele já tem. Em seguida, veio outro que estava provavelmente junto. Pediu tudo, com o mesmo método, mas nós tivemos que rir, pois não havia mais nada.

Mentira, claro que tinha muita coisa valiosa. Tinha meu PSP, o iPod, o celular, mais dinheiro, meus vales transportes, cartões de crédito, documentos, tudo. Mas não era muita coisa que fosse alimentá-lo aquela noite, ou seja lá o que for que ele queria fazer com coisas valiosas.

Depois, na relativa segurança do lar, fiquei pensando no acontecido. Provavelmente ele não tinha nenhuma arma, mas porque eu iria arriscar? Ao contrário dele, tenho muito a perder. Mas será que ele teria nos escolhido se houvesse um homem no carro? Será que existe alguma forma de se defender deste tipo "light" de violência?

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Quarta-feira, 7 de Fevereiro de 2007

Iniciando os trabalhos

Há muito tempo falamos de ter este blog coletivo e não nos mexemos. A proposta inicial era um podcast coletivo, ficou difícil por causa de tempo, virou blog e veio parar aqui. O importante é que somos nós três, nos amamos e queremos conversar. Mas não só entre nós, é claro, senão manteríamos uma troca intensa de e-mails. Queremos comentários e queremos temas e temos planos. Pensamos no futuro.

Mas agora acho que sei como começar. É uma declaração de amor às outras duas, é um agradecimento e também um pontapé inicial. Afinal, é muito raro encontrar mocinhas como as duas co-autoras deste blog e as relações entre mulheres heterosexuais são notoriamente complicadas.

Por que será que é tão difícil se relacionar com outras mulheres? Por que a amizade com meninas demanda tanto esforço e tem tanta probabilidade de acabar mal?

Muitos respondem que é por causa de homens que entram no meio de duas ou mais. Concordo, mas vou muito além. Normalmente não precisamos de homens para nos levar ao conflito, fazemos isso sozinhas.

Somos ciumentas, competitivas, fofoqueiras e maldosas. Sabemos dizer exatamente o que machuca mais as nossas amigas. E, no meio disso, surge este amor intenso, a confiança completa nessas duas moças. Nós compartilhamos nossas vidas, nossas felicidades e, surpreendentemente, nossos medos. Mostramos o bom e o ruim, buscamos conselhos e colo.

Infelizmente, a maior parte das minhas experiências anteriores com amigas não foi assim. Boas amigas foram sempre minoria e eu sempre preferi amigos homens exatamente para evitar o desgaste da convivência feminina, além de toda a paranóia que vem acoplada às mulheres.

Repito: por que é tão difícil, se somos loucas iguaizinhas?

Boa parte do problema é que mulheres são treinadas para sonhar em serem admiradas por outras mulheres. E não há público mais difícil, volúvel e exigente, confesso. Nem as perfeitas agradam, exatamente por serem perfeitas. Tudo é um problema e causa a maldita mágoa, a medonha inveja ou o simples desprezo.

Com o tempo, qualquer saia que cause polêmica pode ser catalisadora de uma ruptura agressiva. Ou qualquer olhadela para o namorado alheio. No fim das contas, mulheres não confiam em si mesmas e sabem de seu próprio potencial para o mal. E, a partir disto, julgam todas as outras pelo mesmo parâmetro.

Que saco.

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