Isto é um assalto
Ontem eu fui assaltada enquanto estava de carona no carro de uma colega de trabalho. Ela gentilmente ofereceu uma carona até a Avenida Paulista e eu aceitei. Por incrível que pareça, foi o primeiro assalto de verdade que sofri em toda a minha vida, mesmo depois de 25 anos de Rio de Janeiro.
E não foi nada tenebroso como as coisas que a gente lê no jornal, apesar de estar longe de ser uma experiência que eu gostaria de repetir. Foi um moleque, um pivete magrinho que falava muito baixo e pausado. Devia ter entre 9 e 12 anos, no máximo, baixinho, magro. Sem características que o diferenciassem do estereótipo de um pivete de rua.
Ele se aproximou da minha janela (praticamente fechada) e começou a falar pausadamente, olhando para um espaço vazio entre eu e minha colega. "Se acelerar ou fechar a janela ou gritar, dou um tiro em você. Me dá todo o dinheiro, agora. Me dá tudo logo."
Demorei para entender a situação, pois eu estava no meio de um causo qualquer. E confesso que parei dois segundos para avaliar o moleque e tentar ver o quanto ele valia. Não foi uma opção racional, claro, foi uma reação. A única que tive, inclusive. Fiquei olhando para ele e disse, em únissono com a colega, "não tenho nada, cara". Fiz uma expressão facial de lamentação sem muita preocupação e daí ele começou a dizer que valia celular, qualquer coisa, vamos logo com isso.
Minha colega ficou fingindo que ia pegar a bolsa enquanto eu efetivamente abri o bolso da mochila, meti a mão no meu porta dinheiros e tirei as notas que consegue tatear. R$30, descobri depois. Entrei a ele pela frestinha do vidro e virei o rosto, com raiva bem maior do que eu achei que fosse sentir.
Tanta raiva que desejei - com uma certa certeza sádica - coisas muito piores para ele do que ele já tem. Em seguida, veio outro que estava provavelmente junto. Pediu tudo, com o mesmo método, mas nós tivemos que rir, pois não havia mais nada.
Mentira, claro que tinha muita coisa valiosa. Tinha meu PSP, o iPod, o celular, mais dinheiro, meus vales transportes, cartões de crédito, documentos, tudo. Mas não era muita coisa que fosse alimentá-lo aquela noite, ou seja lá o que for que ele queria fazer com coisas valiosas.
Depois, na relativa segurança do lar, fiquei pensando no acontecido. Provavelmente ele não tinha nenhuma arma, mas porque eu iria arriscar? Ao contrário dele, tenho muito a perder. Mas será que ele teria nos escolhido se houvesse um homem no carro? Será que existe alguma forma de se defender deste tipo "light" de violência?

