Represas
Confesso que às vezes meu peito é como uma grande represa. A cada dia, deixo mais uma gotinha ser depositada ali e me calo. Abro um sorriso vazio, engulo as palavras e dou um consentimento contrário à minha vontade antes mesmo de ter tempo de refletir. É um tipo de covardia, um medo irracional de situações de confronto e momentos desagradáveis. E pior: tenho visto muita gente em situação parecida com a minha.
O problema não é apenas se a anular, o problema é que toda represa precisa de um alívio senão ela estoura. A torrente de palavras feias que sai dali é chocante para quem não tinha nem idéia de que existia um desconforto. Isso me incomoda, porque é sempre ruim perder a razão de bobeira, mas pior ainda é efetivamente ser injusta com a(s) pessoa(s) em questão.
Se o interlocutor for do sexo masculino, periga dele não ter nem idéia de que existia um desconforto. Vi essa cena mil vezes até aprender que assim não há relacionamento - seja de trabalho, amizade ou romance - que resista. Não gosto do extremo oposto, que é o barraco. Mas como diz meu querido pai, citando Buda de forma completamente empírica, o equilíbrio é fundamental.
Fica a pergunta: por que a gente faz isso? Eu nunca apanhei por reclamar educadamente de nada. Então por que tanto temor? Por que tanta coisa contida criando fantasmas gigantescos onde só havia uma formiguinha?
Já estive dos dois lados da explosão e sei o quão incompreensível é ver alguém explodindo (aparentemente) do nada, por uma bobagem. Não sou fã de pagar de louca por aí, estou fazendo o que posso - e progredindo bem - para evitar novas represas. Mas eu queria entender. Meninas, luz?
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